quinta-feira, 30 de março de 2017

Quem sou eu? A criança descobrindo a si mesma...

Quem sou eu? Eu acredito que essa é uma pergunta muito difícil para todos nós... 

Descobrir quem somos, o que queremos, como desejamos viver nossa vida, como sermos felizes e nos realizarmos, como lidar com a dor e o sofrimento... São questões com as quais nos deparamos ao longo de toda nossa história...

E quantas vezes não sabemos essas respostas, não é mesmo?

Ou então, quando finalmente temos a 
impressão de que descobrimos... 

De repente as perguntas mudam...


Ou as respostas que tínhamos,
 já não nos servem mais...


Bom, se para nós, adultos, já é tão difícil elaborar essa jornada, imagine só como é para a criança, que está apenas começando sua caminhada na vida...

A criança é alguém que ainda tem poucas experiências, que tem um repertório pequeno de respostas assimiladas, assim, a cada dia, a cada nova experiência, ela descobre mais coisas sobre si mesma e sobre o mundo...

Essa é a essência do seu processo de crescimento.

É assim que ela vai descobrindo:


Do que eu gosto?
Do que não gosto?
O que me dá medo? O que me dá prazer?
Sou corajoso(a)? 
Como eu lido com o amor e com a raiva?


Assim, existem duas grandes rotas para a criança ir descobrindo a si mesma: 


Experiência direta:
 - eu comigo mesma e eu com o mundo - 
Constitui um meio muito importante de autodescoberta uma vez que, por meio das experiências, a criança vai conhecendo o mundo e como ela reage a cada situação.

Uma outra rota, ou um outro caminho, de autodescoberta é o que eu apreendo sobre mim através do olhar dos outros....

Gosto muito de uma história que Leloup (2013) conta sobre isso: 

"Há uma tribo de índios, na Amazônia, em que todas as crianças eram belas porque não havia outro espelho, além dos olhos de suas mães".

Nessa tribo as crianças conheciam a sua própria imagem através do reflexo nos olhos de sua mãe... Era por meio desse olhar que elas viam a si mesmas com amor, com respeito, com carinho...
Ou então com mágoa, com raiva ou com rancor...

Esse é o grande dilema e o grande mistério desse percurso... Afinal, quando nos descobrimos pelo olhar do outro podemos nos deparar com um olhar que seja acolhedor ou afetuoso ou não - um olhar duro, rígido, raivoso ou amedrontador...

Assim, "a dificuldade é encontrarmos um olhar em que possamos ser nós mesmos, em verdade. Um olhar completamente lúcido e, ao mesmo tempo, completamente amoroso. Porque o olhar lúcido que nós encontramos frequentemente nos mata e o olhar benevolente que nós encontramos não nos ajuda a descobrir a nossa verdade. E temos necessidade, para sermos nós mesmos, de ter sobre nós um olhar de verdade e de amor" (Leloup, 2013, p. 89).

Olhar do outro:
Essa via de crescimento demanda do adulto uma postura de muito amadurecimento emocional, a fim de que ele não projete na criança suas próprias dificuldades e insatisfações, pois a criança ainda não tem condições psicológicas de fazer, ela mesma, essa diferenciação.
Então, ela passa a compreender que ela mesma não é boa, que ela é uma pessoa ruim e inadequada e, assim, sua alma adoece.


É aqui que eu gostaria de convidar você a olhar para si mesmo e refletir: como é o espelho que você tem oferecido para as crianças em sua vida?

 Você que é pai, mãe, irmão, professor(a), terapeuta...
Você que, de alguma forma, convive com uma criança.

O que será que ela vê quando olha nos seus olhos?

Amor                          Dureza                 Carinho

      Compaixão                      Raiva                      Acolhimento

  Medo                      Proteção                        Perdão


Afinal, para descobrir a si mesma,verdadeiramente, a criança precisa de um olhar que seja simultaneamente lúcido - claro, racional, objetivo, que a ajude a compreender a si mesma e ao mundo; 
e também precisa de um olhar amoroso - que permitirá que ela veja a si mesma como alguém especial, importante, amada, respeitada e cheia de potenciais a serem desenvolvidos.

Leloup (2013) ainda diz outra frase muito especial:

"Há alguns lugares, em nós mesmos, que não existem enquanto o amor não tiver penetrado" 
(p. 144)

Eu acredito que é isso que as crianças buscam em nosso olhar, um santuário, um espaço sagrado, onde há uma abertura amorosa para que elas possam encontrar a si mesmas...

Um lugar onde elas possam errar e ainda assim serem dignas de amor e perdão, onde elas encontrem orientação e suporte firmes, mas flexibilidade para que elas não tenham medo de experimentar as muitas novidades do mundo, um espaço de descobrimento e nutrição de suas habilidades e
também de reconhecimento de suas dificuldades...

Então hoje esse é o meu convite, reflita:

que tipo de espelho seu olhar têm oferecido?





💗💗💗💗💗💗

Referência:
Leloup, J; Y. (2013). Caminhos da realização: dos medos do eu ao mergulho no Ser. Petrópolis, RJ: Vozes.

terça-feira, 21 de março de 2017

Limites - o desafio de favorecer o desenvolvimento infantil

Esse é um tema bastante difícil, controverso e extremamente importante quando se pensa sobre o desenvolvimento infantil... 

Como psicóloga infantil essa é uma demanda muito recorrente no meu consultório, tanto como um aspecto de dificuldade vivenciado pelas famílias no dia-a-dia com as crianças, quanto no trabalho diário que faço com elas na terapia...

O desenvolvimento psicológico da criança é resultado de uma série de interações com as pessoas e com o mundo - é por meio do contato com o mundo humano e com o mundo dos objetos que surgem demandas às quais a criança precisa responder e, assim, adequar seu comportamento às especificidades de cada contexto (escolar, familiar, etc.). Então, à medida que ela vive inúmeras experiências, vai construindo comportamentos e experimentando uma série de possíveis configurações psicológicas.


A capacidade da criança de responder apropriadamente, ou não, às demandas do meio é mediada por seus recursos emocionais e por sua capacidade de se regular ou se reajustar ao contexto.
(Se há alguma dificuldade nesses elementos - a terapia infantil é uma importante possibilidade de resgatar e cuidar dos recursos emocionais da criança e de sua capacidade criativa de se regular/reajustar).

A medida que a criança vai crescendo, ela vai ganhando várias habilidades em diversas áreas - cognitiva, motora, emocional - visando constituir uma personalidade saudável e uma autoimagem positiva, ou seja, desenvolvendo sua individualidade, sua autoestima, autorrespeito,  autonomia, autoconfiança, competências, etc.


Então, o desenvolvimento infantil é fruto das influências ambientais, dos acontecimentos da vida e das potencialidades inatas da criança.

Os limites, aqui, estabelecem uma função crucial para favorecer esse processo, uma vez que estabelecem um parâmetro de mundo para a criança, promovendo sensação de segurança, adequação e previsibilidade acerca das situações que ela terá que enfrentar.

Assim, os limites estabelecem fronteiras entre a criança, os outros e o mundo, situando-a e favorecendo que ela consiga se comportar de maneira adequada em cada situação.

Resultado de imagem para limites

Para construir esses limites, três bons parâmetros a se considerar são a necessidade de previsibilidade e segurança, bem como a necessidade de liberdade da criança. 

Uma vez que...

muita segurança vai impedir a evolução da pessoa, gerando sensação de aprisionamento, seu desenvolvimento emocional fica enrijecido e sua percepção de si mesma, dos outros e do mundo fica bloqueada.

mas muita liberdade faz com que a criança se sinta insegura e desprotegida, porque não sabe como lidar com tanto poder.


Um outro parâmetro fundamental a ser considerado é a postura dos pais, no que diz respeito à diferenciação entre autoridade e autoritarismo.


autoridade - postura crucial exercida pelo adulto que visa atender a necessidade da criança - estabelecendo limites.


Resultado de imagem para autoritarismo pais

autoritarismo - caracteriza uma postura arbitrária, desvinculada de cuidado e atenção às necessidades da criança, visa atender a necessidade de poder do adulto. Esse modo de relação é extremamente prejudicial para as crianças, pois não satisfaz às suas necessidades, faz com que se sintam inseguras, amedrontadas e desafiadoras.

   

Estabelecer limites é um recurso que pode favorecer imensamente o desenvolvimento infantil, desde que seja usado como um instrumento amoroso...

que visa atender às necessidades da criança de segurança, proteção e previsibilidade...

ao mesmo tempo lhe permitindo desfrutar de liberdade para conhecer o mundo, os outros e a si mesma, desenvolvendo seus potenciais e habilidades!!



Daniela Elias Naves 
Psicológica - especialista em Gestalt-terapia, atendimento infantil e adulto.

Referência:
Aguiar, L. (2014). Gestalt-terapia com crianças: teoria e prática. (2ª ed).  São Paulo: Summus.

segunda-feira, 13 de março de 2017

Características do Déficit de Atenção e Hiperatividade e seus impactos no desenvolvimento emocional da criança

Hoje decidi falar um pouquinho sobre as características básicas do TDAH (Transtorno de Déficit de Atenção e Hiperatividade), pois noto que essa sigla se tornou muito comum no dia-a-dia das escolas e famílias, mas há ainda pouca informação sobre o conceitos e características que descrevem esse quadro e como ele impacta a vida das crianças e das pessoas que estão lidando com ela (pais, professores, colegas, etc.).

As principais características do TDH incluem: dificuldade de atenção concentrada, distração por inúmeros estímulos do ambiente, atenção difusa (a criança fica atenta a várias coisas ao mesmo tempo), pensamentos desorganizado e dificuldade de memorização (muito comum em conteúdos acadêmicos pelos quais a criança não se interessa).

E é assim que a família costuma caracterizar essas crianças - parece que estão ligados no 220V o tempo todo! São atentas a tudo e todos que estão ao seu redor; se interessam por tudo o que acontece; mal começam uma brincadeira e já trocam por outra e outra e outra; não conseguem ficar paradas - movimentam-se o tempo todo (balançam pernas e braços ou constantemente mudam a postura corporal enquanto estão paradas); têm dificuldades de ouvir e seguir regras; agem impulsivamente...

Eu percebo que os dois sintomas mais difíceis  para a família enfrentar, normalmente, são relativos à atenção e a hipercinesia (excessiva movimentação corporal).

A dificuldade em manter a atenção concentrada acontece em razão de que isso demanda um esforço em concentrar a atividade psíquica em um determinado estímulo e mantê-lo como foco consciente, ou seja, a atenção não é apenas um exercício cognitivo, mas requer elementos como motivação e envolvimento afetivo. 


Assim, a pessoa hiperativa enfrenta dificuldade de 
sustentar a atenção, uma vez que está o tempo todo 
ligada a diversos estímulos do ambiente e seu 
pensamento ocorre em um fluxo muito rápido, o que, consequentemente, diminui sua capacidade de 
processar, assimilar, compreender e 
armazenar informações.


Bom, podemos compreender a hipercinesia (modo excessivo de movimentação corporal) como um sintoma do desencontro entre o que a criança está pensando e o que ela está sentindo - afinal, como sua dimensão racional está sobrecarregada de dados, ela estabelece uma forma de contato com o mundo que é vago, superficial e desorganizado, assim, não toma consciência do que está acontecendo consigo e sua capacidade de percepção fica diminuída. 


A movimentação corporal constitui, então, um meio substituto para amparar a criança quando ela não consegue se apoiar no pensamento organizado e na elaboração emocional e simbólica do mundo.

Segundo Aguiar (2005, p. 192), "a essência do TDAH revela, portanto, que a criança é confusa,  não sabe bem o que fazer e o que pensar, vive à procura de si e de um sentido de vida".

Então, quando encontramos uma criança nesse quadro, é importante compreender que esse estado de agitação, a dificuldade de concentração, aprendizado e memória não são fruto de falta de limites ou desinteresse, mas na verdade é uma configuração psicológica sobre a qual ela não tem controle e que lhe provoca sofrimento!

Essa criança precisa de tratamento, atenção e ajuda!

O tratamento é multifacetado e envolve a família e os professores - oferecendo um suporte educacional mais humano e adequado às necessidades específicas da criança.

É fundamental um trabalho terapêutico com a criança a fim de promover um contato mais saudável tanto na dimensão corporal quanto na dimensão da consciência - ajudando a perceber seu próprios pensamentos e sentimentos, responsabilizando-se por suas escolhas e a estabelecendo um modo de interação mais organizado e satisfatório com o mundo!

Bom, espero que esse texto possa ajudá-los a conhecer e compreender um pouco melhor essa condição do TDAH, estou à disposição para tirar dúvidas e discutir esse tema!!

💗💗💗

Referência:
Antony, S. & Ribeiro, J. P. (2005). Hiperatividade: doença ou essência, um enfoque da gestalt-terapia. Psicologia: ciência e profissão, 20(2), 186-197.