terça-feira, 18 de abril de 2017

Crianças agitadas... Como compreendê-las e ajudá-las.

Boa noite!
O texto de hoje sai com um pouquinho de atraso, afinal, na semana passada foi feriado de Páscoa e a overdose de chocolate atrapalhou um pouco o ritmo do blog... 😁


Esse texto busca atender algumas solicitações feitas pelas 
minhas redes sociais, vou falar um pouco sobre como 
compreendo crianças agitadas e, também, como trabalho limites com elas.


Trabalhar com crianças agitadas é sempre um grande desafio...
Certa vez, recebi em meu consultório uma menina de 8 anos, que tinha sido trazida pela família por apresentar uma série de dificuldades importantes na fala e que, quando não se sentia compreendida, tinha ataques de fúria nos quais gritava, chorava, batia nas pessoas, jogava e quebrava objetos. 
Nosso primeiro encontro foi absolutamente caótico, eu não conseguia 
entender o que ela tentava me dizer, o que a deixava a cada momento mais e 
mais irritada e, assim, eu ficava cada vez mais apavorada... 
Essa criança passou cerca de quarenta minutos jogando todos os meus brinquedos para cima, revirou o consultório inteiro, corria para fora e dentro da sala, se escondia no banheiro... Ao final da sessão eu tinha a nítida impressão de que não conseguiria trabalhar com ela.

Bom, sim, eu fiquei em desespero diante do altíssimo nível de agitação daquela criança... Eu me vi diante de uma pessoa que estabelecia uma forma de contato muito empobrecida, que me confundia e me assustava, sentia que ela me afastava o tempo todo e não havia nada que eu pudesse fazer para me aproximar, ser vista ou ouvida por ela.

Depois que ela foi embora e eu pude parar e respirar, fui entendendo que ela não estava daquela forma comigo, especificamente, ela estava daquela forma consigo mesma... Aquela configuração agitada, cheia de energia e confusão, refletia como ela estava por dentro.
Sua própria alma encontrava-se nesse estado desorganizado... 

Jonh Stevens (1977) diz que "algumas pessoas vivem em casas mentais tão atulhadas, que não há lugar para ninguém viver. 
Tão cheias de caixas velhas, geladeiras quebradas, fotografias antigas, pedaços de cordas e outros tipos de objetos que não há como entrar ou sair". 

É assim que eu compreendo as pessoas agitadas - elas estão tão cheias de "entulho emocional" que quase não sobra espaço para mais nada....


Estou chamando de "entulho emocional" uma série de experiências não resolvidas - traumas, problemas, feridas, ansiedades e preocupações que ocupam tanto espaço e energia emocional que a pessoa fica aprisionada em um círculo sem fim, sempre ocupada e cheia de atividades, mas sem nunca resolver, efetivamente, essas demandas.

Este é o grande problema - há tantas coisas presentes que a pessoa fica perdida - não sabe nem por onde começar...

Entendo essa forma de agitação como um meio adoecido de lidar com a própria vida.


Se a criança está envolvida com várias atividades ao mesmo tempo, certamente não está focada em nenhuma delas... 
Sua atenção fica dispersa e, sua capacidade de resolvê-las, imensamente prejudicada.

Então, quando estou trabalhando com elas, 
peço-lhes primeiramente, que estabeleçam uma lista de 
prioridades - por onde querem começar a trabalhar....

Por exemplo, com as crianças que chegam ao consultório e querem brincar com todos os jogos ao mesmo tempo, explico-lhes que não há tempo suficiente para isso, então sugiro que escolham um para começar e mais um ou dois para tentarmos usar naquele dia 
(se der tempo).

Essa é uma forma muito gentil de colocar limites e contornos para a criança, orientado-a a estabelecer uma forma de contato mais saudável e organizada, para que assim ela possa estar realmente engajada na atividade que está realizando.
Eu acredito que essa é uma maneira eficaz de ajudar uma pessoa que se encontra em estado de agitação e desorganização interna...

Com aquela criança que citei no início do texto, esse processo levou algum tempo para se estabelecer, mas aos poucos, nós duas fomos construindo uma nova forma de interação - mais organizada, mais calma...

Agora, uma importante ressalva a ser feita, é que existem crianças que têm uma natureza própria mais agitada, enquanto outras são mais calmas...
Assim, não se pode esperar que uma criança que é naturalmente mais agitada se transforme em uma criança absolutamente tranquila!
Mas, se o estado de agitação é reflexo de um mal-estar emocional, aí sem dúvida ele precisa ser tratado - se há "entulho emocional" a pessoa precisa de terapia para poder desobstruir o que está entravando o fluxo normal de sua vida.

Então, se você convive com uma criança agitada, fique atento, essa agitação é uma parte da natureza dela? Sempre foi assim? Ou algo mudou, algo aconteceu na vida dela e ela passou a se comportar dessa maneira?

Se a agitação não for natural, se estiver prejudicando ou obstruindo a vida dessa pessoa, procure ajuda de um psicólogo, talvez uma "faxina emocional" seja necessária.



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domingo, 16 de abril de 2017

Sobre a páscoa...

Hoje é dia da Páscoa, quando cristãos comemoram a ressurreição de Jesus... Esses dias sempre me convidam a momentos de recolhimento e reflexão, afinal, independentemente de qual seja sua religião ou credo, todos nós seres humanos passamos por momentos de dor, sofrimento, angústia e desespero...
Vivemos nossos próprios calvários, carregamos cruzes, sagramos e choramos... Conhecemos a dor, ela se faz presente em nossa caminhada da vida e, muitas vezes, parece ser quase impossível sobrevivê-la.
Para mim, essa é a grande mensagem da Páscoa - a esperança - afinal, o sofrimento, a solidão, o medo e a dor, por mais terríveis que sejam, um dia, chegam ao fim... Então, podemos sair da caverna e recomeçar.
Essa é a esperança que a Páscoa promete...
Sobrevivemos à dor e renascemos para um novo dia.
Se você tem vivido a dor, a caminhada com a cruz ou os dias de recolhimento na caverna, não se esqueça que há esperança... Que há, dentro de você, a chance de recomeçar, de renascer e começar uma outra vida.
Nesse dia, meu desejo para mim mesma e para cada um de vocês, é que a nossa capacidade de suportar a dor, recolher-nos e renascer, esteja presente em potencial e se faça ato sempre que necessário. Desejo-lhes então uma Páscoa cheia de chocolate, felicidade e potencial de renascimento a cada um de nós!


quarta-feira, 5 de abril de 2017

Amor, amor, amor...

"O amor é um mistério. Está para além de 
qualquer tentativa de compreensão" 

(Cardella, 2009, p. 17).

Falar sobre o amor é propor-se uma tarefa hercúlea... Afinal, desde o início da história da humanidade, esse tema foi discutido por poetas, filósofos, pela literatura e todas as formas de arte, até mesmo (embora um pouco menos) pela ciência, e, ainda assim, permanece sendo um grande mistério e um grande chamado para cada um de nós...

Meu objetivo, então, não é definir, nem tentar explicar o amor, mas falar um pouco de como tem sido a minha experiência em relação o amor , vivida na clínica com os meus clientes e por eles...



O que é o amor?


Definitivamente uma pergunta difícil de responder...
Mas eu gosto do que Cardella (2009, p. 21) diz:

"São muitas as facetas do amor"

Por isso me vejo livre da necessidade de tentar defini-lo... 
Há muitas e muitas formas e maneiras diferentes de amar e cada uma delas constitui, inevitavelmente, uma dessas facetas.

Bom, eu acredito que amor tem a ver com reconhecimento e aceitação...

Uma vez que para amar algo ou alguém é preciso re-conhecer, 
afinal de contas, conhecer, apenas, não basta!

Re-conhecer alguém é conhecer novamente, 
por certas particularidades, que uma pessoa 
ou coisa é a mesma que noutro tempo foi conhecida 
(Dicionário Priberan, 2013). 

Afinal de contas, nós mudamos o tempo todo, somos formados e transformados por tudo o que acontece em nossa vida e, por isso mesmo, para amar e continuar amando, é preciso perceber e acompanhar esse eterno processo de transição...

Seu cônjuge, seu filho ou filha, amigo ou amiga, pai e mãe, certamente já não são mais as mesmas pessoas que eram quando você os conheceu pela primeiríssima vez, aliás você e eu também não! Isso não é um problema, é uma condição natural do ser humano... e é imprescindível, para que o amor subsista, que estejamos atentos à transformação da pessoa amada.

Afinal, se eu olho hoje para meu cônjuge e ainda vejo a pessoa 
que ele(a) era há dez anos atrás, provavelmente nos 
desencontramos em algum ponto nessa caminhada na vida.

Quando eu percebo isso acontecendo - no consultório - costumo pedir aos meus clientes que olhem novamente nos olhos da pessoa, que tentem perceber quem ela é hoje...

Peço-lhes para re-conhecer - conhecer novamente, atualizando seu olhar...




Acredito também que amor relaciona-se à aceitação...

Aceitação de si mesmo, em primeiro lugar! Afinal, o amor começa quando conhecemos a nós mesmos - o que somos, quem somos, nossos limites, nossas habilidades...

O amor nasce, brota, primeiro em mim, para que depois possa florescer em direção ao outro.

E, se não sou capaz de ser amoroso comigo mesmo, provavelmente não serei capaz de ter atitudes ou relações amorosas com o outro...


Assim, aceitar tem a ver primeiro comigo - com ter tolerância, respeito, acolhimento e carinho com a minha humanidade - o que eu sou, o que faço bem e o que eu tenho dificuldade, com meu caminho de crescimento pessoal, com aquilo que sou e com aquilo que ainda quero me tornar...

Para que depois eu possa fazer isso pelo outro...

No consultório, essa é minha busca diária com cada cliente... Que ele(a) possa olhar para dentro e ver a si mesmo com mais amor, com mais ternura, com mais gentileza...
Que possa viver essa jornada da vida mais em paz consigo mesmo.

"O amor por si mesmo envolve a aceitação incondicional do próprio ser, o que não significa a incapacidade de reconhecer-se limitado; ao contrário, é a capacidade de ver-se, ouvir-se, compreender-se e respeitar-se, e de ter atitudes amorosas também com as outras pessoas" 
(Cardella, 1994, p. 23).



Assim, entendo que o estado amoroso nos permite 
re-conhecer e aceitar:

Re-conhecer a pessoa amada - quem ela é, acompanhando a caminhada que ela trilha no seu próprio processo de crescimento e transformação e, assim, atualizar a cada passo o meu amor por ela e por quem ela está se tornando.


Aceitar que nós somos seres imperfeitos, repletos de luz e sombras, habilidades e dificuldades... Respeitar o ser único que ele(a) é e amá-lo por ser assim.


Entendo que independente da idade, sejamos adultos, crianças, idosos ou adolescentes, somos convocados a experimentar o amor todos os dias e, muitas vezes, esse é um grande desafio.

Às vezes sabemos amar mais e melhor os outros do que amamos a nós mesmos...
Mas se isso acontece, nossa fonte de amor está doente, pois só podemos dar aquilo que temos e, se não temos amor por nós mesmos, provavelmente o amor que temos para oferecer não esteja tão inteiro e nutritivo para o outro.

Se desejamos aprender a amar, precisamos primeiro amar a nós mesmos, nutrindo nossa própria fonte para que ela possa, depois, também alimentar outros.

Como você tem vivido o amor e suas relações amorosas?


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Referências:
Cardella, B. H. P. (1994). O amor na relação terapêutica: uma visão gestáltica. São Paulo: Summus.
Cardella, B. H. P. (2009). Laços e nós: amor e intimidade nas relações humanas. São Paulo: Ágora.