O texto de hoje sai com um pouquinho de atraso, afinal, na semana passada foi feriado de Páscoa e a overdose de chocolate atrapalhou um pouco o ritmo do blog... 😁
Esse texto busca atender algumas solicitações feitas pelas
minhas redes sociais, vou falar um pouco sobre como
compreendo crianças agitadas e, também, como trabalho limites com elas.
Trabalhar com crianças agitadas é sempre um grande desafio...
Certa vez, recebi em meu consultório uma menina de 8 anos, que tinha sido trazida pela família por apresentar uma série de dificuldades importantes na fala e que, quando não se sentia compreendida, tinha ataques de fúria nos quais gritava, chorava, batia nas pessoas, jogava e quebrava objetos.
Nosso primeiro encontro foi absolutamente caótico, eu não conseguia
entender o que ela tentava me dizer, o que a deixava a cada momento mais e
mais irritada e, assim, eu ficava cada vez mais apavorada...
Essa criança passou cerca de quarenta minutos jogando todos os meus brinquedos para cima, revirou o consultório inteiro, corria para fora e dentro da sala, se escondia no banheiro... Ao final da sessão eu tinha a nítida impressão de que não conseguiria trabalhar com ela.entender o que ela tentava me dizer, o que a deixava a cada momento mais e
mais irritada e, assim, eu ficava cada vez mais apavorada...
Bom, sim, eu fiquei em desespero diante do altíssimo nível de agitação daquela criança... Eu me vi diante de uma pessoa que estabelecia uma forma de contato muito empobrecida, que me confundia e me assustava, sentia que ela me afastava o tempo todo e não havia nada que eu pudesse fazer para me aproximar, ser vista ou ouvida por ela.
Depois que ela foi embora e eu pude parar e respirar, fui entendendo que ela não estava daquela forma comigo, especificamente, ela estava daquela forma consigo mesma... Aquela configuração agitada, cheia de energia e confusão, refletia como ela estava por dentro.
Sua própria alma encontrava-se nesse estado desorganizado...
Jonh Stevens (1977) diz que "algumas pessoas vivem em casas mentais tão atulhadas, que não há lugar para ninguém viver.
Tão cheias de caixas velhas, geladeiras quebradas, fotografias antigas, pedaços de cordas e outros tipos de objetos que não há como entrar ou sair".
Tão cheias de caixas velhas, geladeiras quebradas, fotografias antigas, pedaços de cordas e outros tipos de objetos que não há como entrar ou sair".
É assim que eu compreendo as pessoas agitadas - elas estão tão cheias de "entulho emocional" que quase não sobra espaço para mais nada....
Por exemplo, com as crianças que chegam ao consultório e querem brincar com todos os jogos ao mesmo tempo, explico-lhes que não há tempo suficiente para isso, então sugiro que escolham um para começar e mais um ou dois para tentarmos usar naquele dia
(se der tempo).
Estou chamando de "entulho emocional" uma série de experiências não resolvidas - traumas, problemas, feridas, ansiedades e preocupações que ocupam tanto espaço e energia emocional que a pessoa fica aprisionada em um círculo sem fim, sempre ocupada e cheia de atividades, mas sem nunca resolver, efetivamente, essas demandas.
Este é o grande problema - há tantas coisas presentes que a pessoa fica perdida - não sabe nem por onde começar...
Entendo essa forma de agitação como um meio adoecido de lidar com a própria vida.
Se a criança está envolvida com várias atividades ao mesmo tempo, certamente não está focada em nenhuma delas...
Sua atenção fica dispersa e, sua capacidade de resolvê-las, imensamente prejudicada.
Então, quando estou trabalhando com elas,
peço-lhes primeiramente, que estabeleçam uma lista de
prioridades - por onde querem começar a trabalhar....
Por exemplo, com as crianças que chegam ao consultório e querem brincar com todos os jogos ao mesmo tempo, explico-lhes que não há tempo suficiente para isso, então sugiro que escolham um para começar e mais um ou dois para tentarmos usar naquele dia
(se der tempo).
Essa é uma forma muito gentil de colocar limites e contornos para a criança, orientado-a a estabelecer uma forma de contato mais saudável e organizada, para que assim ela possa estar realmente engajada na atividade que está realizando.
Eu acredito que essa é uma maneira eficaz de ajudar uma pessoa que se encontra em estado de agitação e desorganização interna...
Com aquela criança que citei no início do texto, esse processo levou algum tempo para se estabelecer, mas aos poucos, nós duas fomos construindo uma nova forma de interação - mais organizada, mais calma...
Agora, uma importante ressalva a ser feita, é que existem crianças que têm uma natureza própria mais agitada, enquanto outras são mais calmas...
Assim, não se pode esperar que uma criança que é naturalmente mais agitada se transforme em uma criança absolutamente tranquila!
Mas, se o estado de agitação é reflexo de um mal-estar emocional, aí sem dúvida ele precisa ser tratado - se há "entulho emocional" a pessoa precisa de terapia para poder desobstruir o que está entravando o fluxo normal de sua vida.
Então, se você convive com uma criança agitada, fique atento, essa agitação é uma parte da natureza dela? Sempre foi assim? Ou algo mudou, algo aconteceu na vida dela e ela passou a se comportar dessa maneira?
Se a agitação não for natural, se estiver prejudicando ou obstruindo a vida dessa pessoa, procure ajuda de um psicólogo, talvez uma "faxina emocional" seja necessária.
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