sábado, 25 de fevereiro de 2017

Conversando com crianças...


Conversar com crianças é um experiência muito curiosa... Há alguns anos venho trabalhando como psicóloga infantil e uma coisa que nunca deixa de me surpreender são as muitas peculiaridades na forma das crianças de perceber, reconhecer e interagir com o mundo.

Assim como acontece nessa tirinha do Armandinho, muitas crianças vêem os eventos do mundo de uma maneira diferente dos adultos... Isso acontece em parte porque a experiência da criança é muito limitada em relação ao adulto, ou seja, muitas das experiências que nós já vivemos ainda são uma novidade para elas...

Outro fator importante é a linguagem - acontece muito de a criança não reconhecer vários sentidos que uma mesma palavra ou expressão podem ter 

(como no exemplo da tirinha: exame - prova escolar ou exame médico). 

Assim, ela pode se confundir ou ter dificuldade de compreender a fala dos adultos.

Fui descobrindo, ao longo desse trabalho com os(as) pequenos(as) que, para facilitar a comunicação entre nós (adultos e crianças), são necessários alguns cuidados:

- Especificidade: seja específico e não generalize, pode ser que a criança não conheça sobre o que você está dizendo (lembre-se que ela tem um volume menor de experiências que você)!

- Construção de conceitos: a criança não nasce sabendo o que são e o que significam as coisas, elas precisam ser ensinadas. Então se você quer ensinar ao seu filho(a) ser responsável, diga a ele exatamente o que é ser responsável - por exemplo, ser responsável é: arrumar a sua cama ao acordar, guardar os brinquedos no cesto depois de brincar e fazer a tarefa de casa na hora combinada.

- Simplicidade: quanto mais simples a fala, mais fácil será para a criança compreendê-la! Então evite usar palavras difíceis e também não fale demais...
Frases curtas e simples são a forma mais eficiente de se comunicar com elas...
Se você precisa explicar algo ao seu filho e faz um discurso de cinco minutos, provavelmente ele já parou de escutar aos dois minutos e meio...
Então tente ser breve e eficiente, vá direto ao ponto, sem tentar explicar demais.

- Curiosidade: seja curioso para entendê-lo(a)... Muitas vezes é bastante difícil para a criança expressar-se com precisão, pois ainda lhe faltam recursos linguísticos e amadurecimento emocional e psicológico para isso, então pergunte e se ainda estiver difícil entender o que a criança está tentando lhe dizer, pergunte de novo e de novo...

As crianças, normalmente, estão muito interessadas em estabelecer esse contato com as pessoas e o mundo... Elas são imensamente curiosas e têm vontade de conhecer tudo que está à volta delas, mas elas precisam de ajuda e esse suporte precisa ser oferecido pelos adultos à sua volta...

Conversar e interagir com crianças é um exercício extremamente divertido e prazeroso, então pare e escute seu(sua) filho(a), sobrinho(a), irmão, irmã... Sem dúvida ele(a) ficará muito feliz com isso e você se divertirá também...

Não se esqueça das regras de ouro:
especificidade, construção de conceitos, simplicidade 
e
principalmente CURIOSIDADE!



quarta-feira, 22 de fevereiro de 2017

Terapia infantil – o que é, como funciona e para quê serve...

Muitos pais se perguntam se seus filhos(as) precisam de terapia... Se as dificuldades que a criança e a família enfrentam não são somente uma fase da vida ou se na verdade a criança não precisa de mais limites, regras e castigos...

Hoje há ainda muitas dúvidas e suspeitas a respeito do trabalho do psicólogo e da função da psicoterapia... Essa mesma realidade se dá com relação à terapia infantil. Os pais não conhecem a dinâmica de como funciona esse processo (o que é feito com a criança) e seus possíveis resultados.

A terapia infantil acontece de uma forma muito diferente da terapia de adultos, principalmente pelo motivo de que a maneira principal dos adultos se comunicarem seja por meio da linguagem verbal (fala), enquanto que para a criança não necessariamente aconteça assim... Afinal, dependendo da idade e do nível de desenvolvimento fisiológico e emocional da criança, a fala pode não ser o meio primário de comunicação, mas sim o meio de comunicação lúdico, o que quer dizer que a criança usa de outras maneiras e recursos de expressão – expressão corporal (gestos, movimentos, dança, choro, riso, expressão facial e corporal) e expressão lúdica (através de brincadeiras, jogos, desenhos, histórias, representações teatrais, etc).

Então, ao invés de sentar frente ao terapeuta e conversar – como acontece com os adultos, as crianças sentam (ou correm ou pulam ou desenham ou jogam).  Então, se você fica angustiado que seu filho só esteja “brincando” na terapia e não falando sobre os problemas... Não se preocupe! Ele está mostrando esses problemas ao terapeuta, só não da mesma forma que você faria...

É brincando que ele conta a própria história e os seus problemas, medos, angústias, alegrias e superações...


Assim, a função da terapia infantil é compreender o que está acontecendo com criança, suas dificuldades emocionais podem se manifestar de diversas formas – por meio de sintomas físicos ou emocionais, como por exemplo, pesadelos, medos, fobias, ansiedade, agitação, dificuldades de aprendizagem, comportamento infantilizado, ganho de peso, tristeza, etc.

Quando a família percebe uma mudança na forma “normal” de ser da criança e observa que algo não vai bem com ela, o psicólogo ajudará a compreender o que está acontecendo tanto com a criança, quanto com a família. Por isso mesmo é muito importante o envolvimento e a participação ativa da família no processo terapêutico da criança, uma vez que será estabelecida uma relação de parceria, a fim de que tanto a família, quanto o terapeuta possam ajudar a criança a superar suas dificuldades.


O principal instrumento de trabalho na terapia é a relação da criança com o terapeuta e, por meio das brincadeiras e atividades desenvolvidas no consultório, o profissional tenta - assim como um detetive - desvendar as pistas e sinais que a criança fornece ludicamente, buscando compreender seu misterioso mundo interior e os obstáculos que ele(a) enfrenta.
Juntos, terapeuta e criança, trabalham para ajudá-la a desenvolver novos recursos emocionais para lidar com sua vida e seus bloqueios de forma mais saudável.

Você, papai e mamãe, também podem contar com o terapeuta do seu filho, ele é seu parceiro! Se surgirem dúvidas, medos, preocupações e angústias, não tema! Busque-o, converse, ele está lá para apoiar você também, prestar orientações e, um grande bônus é que quanto mais informações você fornecer a ele, mais o ajudará a conduzir o processo terapêutico do seu pequeno(a)...


Finalmente, o grande objetivo da terapia infantil é ajudar a família e a criança a retomar o curso normal da vida, superando bloqueios e dificuldades, desenvolver com a criança novos recursos emocionais e favorecer a todos os envolvidos uma vida mais feliz e harmoniosa.

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segunda-feira, 20 de fevereiro de 2017

O sofrimento como um caminho de crescimento

Porque sofremos? Precisamos sofrer? A vida não seria melhor se só existissem prazer e alegria?

Essas são perguntas interessantes... afinal, nenhum de nós desejamos sofrer e, se pudéssemos, o evitaríamos ao máximo!

Acontece que sofrer é uma condição natural e inescapável da vida...

Sofremos por amores não correspondidos, por nos decepcionarmos com as pessoas que amamos, por termos nos sentidos ofendidos ou magoados, por não termos conseguido alcançar algum objetivo almejado, por enfrentar dificuldades na área de trabalho ou acadêmica... 
Motivos para sofrer é que não faltam! 



Então será que existe algum sentido em sofrer?

Eu acredito que sim, afinal de contas, são nesses momentos de dificuldades que nós aprendemos lições valiosas...


Há uma velha história que diz: era uma vez um homem que percorria todos os dias uma longa caminhada carregando dois potes de barro, um em cada braço, que usava para buscar água em um poço e levá-la para sua casa. Um desses potes era todo rachado e o outro não... 

Certo dia, depois de muitas caminhadas, 
o pote rachado perguntou ao caminhante:

- Caminhante, porque você ainda me carrega? Eu sou rachado e perco quase toda a água que você juntou durante a caminhada de volta à sua casa...
E o caminhante respondeu:

- É verdade, você é rachado e perde água no caminho de volta, enquanto que o pode inteiro não perde água nenhuma... Mas há também outra grande diferença entre os dois, o caminho do lado do pode inteiro é seco e poeirento, mas o caminho ao seu lado é florido e belo...


Assim somos nós todos... Temos partes inteiras e partes rachadas 
e a cada uma delas há um propósito!

Temos o vaso que é inteiro e nos dá água (benefícios) e temos os vasos rachados (nossas dificuldades e sofrimentos)...

Mas a grande diferença é que o sofrimento igualmente pode nos proporcionar coisas maravilhosas, se com ele fizermos as pazes e tivermos um olhar atento e carinhoso...
Se, por meio dele, nos dispusermos a crescer


Assim, acolher e compreender o sofrimento são meios de descobrir novos espaços dentro de nós mesmos, despertando novos fluxos de compaixão, força e energia que nos permitem levantar quando caímos e nos libertar daquilo que nos aprisiona...


Então, se você sofre, não perca a esperança, permita que suas lagrimas purifiquem e transformem o seu caminho em um campo florido e belo...