ACEITAR
Sete letras, três sílabas, uma única palavra, mas um desafio grandiosíssimo...
Uma palavra originária do latim - accepto - que significa receber o que é oferecido com agrado, admitir
(dicionário Priberam).
Tão fácil de falar, mas tão difícil de viver...
Afinal de contas, do que é que eu estou falando?
Eu estou falando, pensando, meditando e ruminando sobre o quanto é difícil aceitar.
Vivemos em uma sociedade que celebra o perfeccionismo - ou seja - somos criados dentro de uma cultura que glorifica corpos magros e altos, contas bancárias gordas e fotos espetaculares das baladas e comidas mais extravagantes no Instagram...
Buscamos a glória da imagem familiar perfeita: parceiro(a) perfeito(a) com quem constituir uma relação perfeita e uma família perfeita com filhos(as) perfeitos que tiram as melhores notas da sala e que ainda são excelentes em música ou esportes...
Procuramos tantas coisas para nos sentirmos extraordinários, para sentirmos que temos valor, que nossa vida é bacana e vale a pena ser vivida...
Como se disséssemos: - Vejam, olhem para tudo isso, eu estou aqui, eu sou bom, eu tenho valor.
E, apesar de ter tudo isso, eu vejo as pessoas em sofrimento...
Exatamente porque o apego à essas coisas externas é o parâmetro com o qual vêem o seu valor interno.
Essa é a lente - é através desses sinalizadores que elas buscam saber
se são boas, se têm valor, se a vida vale à pena...
E é por isso que há tanto sofrimento.
Buscamos na vida real a perfeição de um corpo que só o Photoshop pode oferecer...
Sonhamos em viver - na vida real - a glória das estrelas hollywodianas na noite do Oscar...
Esperamos de nós mesmos coisas que talvez não correspondam às nossas reais possibilidades - emocionais, psicológicas, biológicas, sociais, econômicas, relacionais...
No fundo, simplesmente, não conseguimos ACEITAR!
Não conseguimos aceitar quem somos - gordo, magro, alto ou baixo...
Não conseguimos aceitar a realidade de nossa vida - o dinheiro, o carro e casa que temos ou os restaurantes e as baladas que frequentamos...
Não conseguimos aceitar os outros à nossa volta - o cônjuge com todas as suas imperfeições, os filhos ou filhas com suas dificuldades e limitações...
Todas as coisas que não aceitamos partem dessa primeira fonte
- não aceitamos a nós mesmos -
não conseguimos receber o que nos é oferecido com agrado não conseguimos admitir que somos assim,
humanos, imperfeitos...
e por isso sofremos.
Somos seres divinos, seres contemplados com luz e graça e somos também seres mundanos, comuns, dotados de sombras...
Esse é o mistério e a beleza do ser humano -
ser habitante de dois mundos:
da graça do céu
e
da mundaneidade da terra.
Você não é o seu cabelo ou o seu corpo;
Você não é a sua conta bancária;
Você não é o seu status de relacionamento;
Você não é nada disso! Você é muito, muito mais do que cada uma e todas essas coisas.
Nós somos seres duais - ao mesmo tempo que somos da ordem da dimensão física - somos também seres da dimensão espiritual...
Nossa essência, nosso espírito, é muito maior e transcende toda essa realidade mundana.
Você é luz
Sua essência é boa e perfeita
Você têm valor e vale à pena por ser exatamente quem você é!
Em toda a minha caminhada de crescimento, nenhum desafio tem sido maior do que esse de aceitar-me...
Aceitar-me exatamente como sou
- sem exaltar nem desvalorizar -
- não buscando aplausos nem vaias -
realmente olhar para dentro é uma tarefa desafiadora,
afinal de contas, somos criados para desejar a glória ou para temer o fracasso...
Olhar-se honesta e abertamente, sem essas expectativas, é um exercício um tanto diferente, mas esse é também o caminho para aceitar...
Essa têm sido a minha missão: accepto
- receber a mim mesma com agrado
- admitindo quem eu sou...
Permitindo - pelo menos para mim mesma - que quem eu sou seja suficiente para que eu me sinta valorosa e merecedora de amor - do meu próprio amor.
Empreender essa jornada não é fácil, por isso - muitas vezes - precisamos de ajuda, de alguém que nos mostre esse caminho...
Afinal, quem de nós foi ensinado a se olhar assim?
- sem julgamento
- sem crítica
- com aceitação, respeito, cuidado e acolhimento?
Agradeço ao Universo pelos muitos professores que cruzaram meu caminho - terapeutas e mestres acadêmicos e espirituais...
Precisamos re-lembrar, re-aprender a nos olhar com carinho, com um olhar inocente, curioso e não-julgador - para isso essa ajuda é importante.
Mas a luz, a essência, já habita em nós...
só nos esquecemos de como encontrá-la.
E precisamos aprender a voltar para casa
- para a casa dentro de nós mesmos -
nossa essência
que é a nossa verdadeira morada.
E é apenas quando estamos em contato com esse centro,
com a nossa essência,
é que conseguimos olhar para nós mesmos amorosamente,
olhar para a vida com gratidão,
olhar para as pessoas à nossa volta com tolerância e compaixão.
O nosso amor flui para o mundo apenas quando a sua
fonte está firmemente plantada no nosso auto-amor.
A compaixão pelos minhas limitações me permite ter compaixão com as limitações do outro;
A minha capacidade de me perdoar, me permite perdoar o outro;
A minha habilidade em me aceitar, me permite aceitar o outro.
Somos humanos, divinos e imperfeitos, luzes e sombras...
Você consegue aceitar?
Sete letras
Três sílabas
Uma única palavra
Um desafio grandioso....
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